03/07/2012


Sempre fui solitária. Não por ter poucas pessoas comigo, mas por não ter pessoas que comunguem com minha idéias e meus ideais. E garanto que cansa muito mais estar rodeada de gente cujos objetivos diferem tanto dos meus, do que se estivesse praticamente isolada tentando colocá-los em prática.

Gosto da solidão em que me transporto nas madrugadas, onde ouço com mais clareza minhas necessidades e consigo trabalhá-las de forma mais amena que em meio à agitação do dia. Faço esforço em mim para que esses gritos de dentro silenciem, ou que pelo menos esses gritos em minha alma já cansada gritem sem eco.

Prefiro a solidão da caminhada do que o agito estacionado. Não posso ficar parada, não consigo ver a vida intercorrendo, oportunidades sendo desperdiçadas, escolhas acontecendo estranhamente equivocadas, como se quem amo gostasse de sofrer, preferisse montar sua vida em cima de momentos tristes e ruins. Que eu seja sozinha então nesse propósito, afinal, o grande astro do nosso Sistema brilha para vários mundos inteiros, e brilha sozinho. Desejo ao menos ser uma faísca da chama de uma vela que, por menor que seja, consegue iluminar o mundo de alguém que está em completa escuridão. Ou o farol de um porto estável àqueles em meio a tempestades e dilúvios. Não desejo ser sol, essa pretensão não é real. Mas me esforço, de várias formas e manifestações, a ser talvez uma pequena estrela no universo de alguém.

Leca Castro - 10/12/11

02/07/2012


Fico observando os desejos das pessoas que conversam comigo e me impressiono com a incapacidade que temos em desejar. Convivo com várias criaturas nas redes sociais, no meio profissional, nos momentos de trabalho (seja ele voluntário ou não), no âmbito familiar, enfim, em diversas situações. E vejo gente pedindo mais dinheiro, reclamando do governo, ou do patrão, ou do azar na loteria, mas se alcançarem tal feito, não têm nem idéia do que fazer com a "sobra" que hoje inexiste. Provavelmente não saberão usar nem distribuir, nem ajudar nem administrar. Criarão mais problemas além dos que já têm.

Escuto alguns pedindo por um(a) companheiro(a), mas quando os Céus lhe concedem a benção de uma jornada a dois, não sabem ser irmãos e amigos e se perdem ao dividir (ou não) suas vidas, ao se entregarem sem restrições. Acabam se perdendo do outro.

No fundo, o que todos precisamos, mais que dinheiro ou amores, é a tão almejada paz de espírito. Apenas não sabemos ainda reconhecê-la, pois nada mais é que a resultantes desses nossos desejos e os propósitos da vida. Ficar bem, ser equilibrado, ter paz, não é ser nem ter nada diferente do que somos ou temos. É saber usar tudo isso hoje de forma equilibrada, sem egoísmo, sem provocar humilhações, e muita das vezes, se anulando para que o outro fique bem ou tenha um pouco mais de perspectiva e alegria na vida.

Como está sua consciência hoje? Pare por um instante, respire fundo, feche os olhos e ouça seu coração. Está leve? Essa deve ser nossa meta diária: manter o coração tranquilo em meio a todos os tumultos  que rodeiam a nossa vida junto àqueles que amamos, ou até mesmo na nossa jornada solitária e sem amores. Certifique-se de esquecer um pouco sua infelicidade para cuidar em trazer um pouco de alegria a quem te procura e conseguirá mais tranquilidade na vida, já desgastada com tanta dificuldade. Procure por essa paz para que a guerra íntima não encontre guarida no coração. Seja refúgio.


Leca Castro - 09/12/11


Qual a dimensão do seu problema hoje? E qual o seu problema hoje? Seria o mesmo de uma semana atrás? O que você considera problema? Tantas perguntas, por si só, já viram um grande problema. Na vida, tudo que me aparece e atrasa minha caminhada, considero problema. Tenho uma doença? Tenho. E por causa dela sou doente? Na maioria das vezes me sinto segura em afirmar que sou mais saudável que a maioria que diz que nunca nem gripou. O conceito de saúde ainda é muito limitado na cabeça da grande maioria. Vai além de ser ausência de doença. Ser saudável é ter a mente sã, o otimismo como bússola, a verdade como projeto, o trabalho como um meio.

Normal se sentir derrubada às vezes. E aproveitando o lembrete do meu pássaro-anjo, canto para mim mesma: houve um tempo de chorar, de derrubar, de me perder, de rasgar. Mas hoje é tempo de descobrir, de sorrir, de abraçar, de sacudir, de cantar. E envolvo meus problemas com carinho e vontade de superá-los, com a determinação de resolvê-los. Não os quero comigo. Desejo minha vida saudável e sempre adiante. Volto a perguntar: qual a dimensão do seu problema? E eu me respondo: tão grande quanto eu permito que ele seja. Jamais será maior que eu mesma!

Leca Castro - 07/12/11


Dias intermináveis de sonhos e em um momento de apenas 5 minutos sinto meu coração despedaçar, minha vida ruir. E me acho a pessoa mais idiota do mundo por ter acreditado em sentimentos, em palavras (vãs), em verdades (falsas), em pessoas (?). É a vida me puxando para o mundo de realidades, onde sentimentos não são valorizados, palavras são lançadas ao vento, verdades são ignoradas e as pessoas... bem, as pessoas possuem várias faces.

O mais intrigante é que vejo essas faces de cada um de acordo com os olhos do coração. Em alguns enxergo a face feia, em outros, a face machucada, cheia de cicatrizes. Com esses, tenho a grata surpresa de vê-los da forma mais linda e pura, diferente da face que a maioria gosta de ver. Mas quando enxergo de imediato uma face bonita, lisa, sem rugas, fico encantada. Onde estava tamanha beleza que ainda não havia sido descoberta por esses meus olhos carregados de emoção? E o deslumbre toma conta e me apaixono por aquele "retrato". Não pela pessoa, mas por essa face linda, porém estática.

E então vem o senhor tempo e faz os olhos da razão se abrirem. Quanta surpresa!... Nesse momento vislumbro outra(s) face(s) dessa pessoa. E claro que não é bonita, pois me derreti de amores pela melhor representação que aquela criatura tinha. Isso é a decepção: se enganar. Fui enganada por quem? Pelo outro ou por mim mesma? Quantas bodas serão necessárias até que meus olhos do peito consigam caminhar de mãos dadas com os olhos por detrás dos olhos? Me sinto pesada, cansada, destruída. Rogo por compreensão, por um colo, por um sono onde acordar não seja opção. Deixo brotar do meu peito uma súplica para que a caminhada se torne menos amarga. Menos complicada. E se os céus me ouvirem, que tragam um refrigério para minh'alma, não tão nova, mas tão cansada e que só quer deitar na relva, na terra, até adormecer.

Leca Castro - 06/12/11


Quando a tristeza assola a alma, não há otimismo que dê conta. O coração fica tão doído que não consegue ver o óbvio, o previsível, o que é tão evidente. Uma nuvem paira em torno e obscurece de fora pra dentro e de dentro pra fora. Nada entra. Nada sai.

Claro que ninguém vai passar do estado de tristeza para o de alegria de uma hora para outra, isso não existe. O que cabe a cada um de nós fazer é desanuviar, soprar para longe essa nuvem obscura com o hálito da vontade. Somente quando espantarmos o que obscurece nossos sentimentos e nos impede de enxergar é que iremos vislumbrar fagulhas alegres em nossa volta.

Essa nuvem tem como nome "pessimismo", e esse sopro, seu antagônico, o "otimismo". Tá certo que o sol consegue dissipar a nuvem, mas se não der conta de lidar com esses raios de luz, livre-se da nuvem da forma mais natural possível: deixando chover. Ainda não entendo a resistência das pessoas em chorar, nem mesmo a sós. O medo da vulnerabilidade embrutece os corações de tal forma que nenhuma idéia consegue penetrar, nenhum argumento. E cada um está certo, cada um tem sua razão, cada um permanece em seu trono inviolável. E cada um sofre mais do que o necessário por não se permitir, por manter a nuvem, por não aceitar feixes de luz, por não se permitir chover. Basta de tanto "não".

Leca Castro - 05/12/11



Domingo... hoje me despedi do ano junto às minhas crianças. Sim, considero-as minhas, pois fazem morada no meu coração. Elas crescem, tornam-se adolescentes, mais tarde ingressam na vida adulta, mas continuam com um lugar em mim, onde podem se aconchegar sempre que precisarem.

Mas não é uma despedida triste e aqui escrevo sobre o que foi desperto dentro de mim. Ao entrar de férias, imeditamente sinto um alívio pois irei descansar, mas todos os anos a saudade aperta rapidamente e anseio pelo retorno muito antes das férias acabarem. Quando retorno sinto outro alívio. Assim acontece também com nossos relacionamentos. Às vezes precisamos de descanso de outras pessoas, até mesmo de amores conquistados, sejam amizades ou parceiros. Relacionamentos desgastam, somos diamantes brutos se lapidando no convívio. E nosso tempo de descanso é determinado por nossos corações.

Quando dá aquele aperto, seja gostoso ou seja sofrido, é chegado o momento do retorno. Foi bom viajar sozinho, dormir até mais tarde, não se comprometer com horários... tudo que nossa alma faz quando se vê liberta de compromissos. Mas toda alma, em determinado momento, sente falta de repouso, do colo de outrora, do ombro macio. Então volte! Retorne até aqueles que te viram distanciar, que te esperam voltar. Volte aos corações que te aquecem, que te aquietam, que te sorriem. Abrace... sem medo, sem sofrimento, sem dor. Apenas abrace...

Leca Castro - 04/12/11


Olhando para o vidro quebrado de uma janela me vi atravessando aquele buraco disforme e me lançando ao vento, num vôo sem volta. Fechei meus olhos e imaginei esse mesmo vento balançando meus cabelos, que coincidentemente havia deixado soltos nessa manhã. Aquele ar gélido me trazia arrepios gostosos e me transpunha até outra realidade... como se realmente possuísse asas. Faço um mergulho no ar e me lembro de Fernão... a gaivota que marcou meus anos de ouro. Lembro que foi o primeiro vôo real que fiz ao ler um texto, ou melhor, um livro inteiro. Dali em diante encarei a leitura de outra forma, em um outro contexto. Aprendi que posso viajar sem arredar o pé de onde estou e que os bens mais preciosos que possuo são meus pensamentos e sentimentos.

Após alguns anos essa descoberta me levou a outra... a escrita. Hoje entendo Fernão mais que nunca, principalmente o Richard. Ah, como ele soube viajar tão bem, de forma tão graciosa, conseguindo me carregar em suas asas até onde o infinito repousa. E a cada texto que escrevo levanto vôo, mergulho, sinto calafrios, arrepios, suor nas mãos e nas têmporas, o rosto esquentando. Mas por hora preciso aterrisar... finalizo mais essa viagem e volto a colocar meus pés no chão. A dentista me convida para entrar. Olho mais uma vez para aquele vidro quebrado e ela, percebendo meu olhar em direção à janela, comenta: "foi o vento ontem. Parecia até que queria entrar!" Mal sabe ela que entrou e me levou.

Leca Castro - 03/12/11


O egoísmo é tão maior que as outras não-virtudes que ele consegue destruir. Friamente. E depois as pessoas dizem que não entendem como pode haver tanto sofrimento. Mas é tão simples a resposta... tão óbvia! Se tenho uma tempestade em mim e preciso deixar chover com alguém, o que acontece? Ou não há tempo para se perder com chuvas, deixa molhar porque não há mal algum nisso, ou então essa chuva é vista e sentida de outra forma, até mesmo como uma garoa. E o que impede o outro de enxergar minha tempestade? Ou o que deixa sua visão tão turva a ponto de achar que minha tormenta se compara a um simples precipitar de nunvens ainda leves?

A tarefa de apaziguar tempestades alheias não é sempre fácil. Na maioria das vezes você se molha, por mais que se proteja. Não tem jeito. É tempestade. O vento leva a chuva em todas as direções. E aí se consegue amenizar essa agitação das águas do céu do outro e chega a bonança... o que vem depois? Vem que você olha para os lados e não encontra ninguém mais com você. Quem teve a tempestade abrandada sai correndo loucamente em direção a outros rumos e te deixa pra trás. E aquele sol escaldante que não é seu e que surge após o vendaval que também não era seu, começa a te sufocar, te esquentar fortemente, até você se sentir bambo, fraco, com sede. E então abandona aquele local e procura por uma sombra. E deseja com todas as forças voltar para a sua tempestade, se refrescar na sua própria chuva, se afogar se possível. Até chegar a hora de precisar de ajuda, companhia, ou um guarda-chuvas que seja. E a hora da sua tormenta chega. E o que acontece? Vem ajuda? Não... Quando aparece alguém e faz acender aquela luzinha de esperança, aquele farol em porto seguro, logo se descobre que não era uma ajuda mas outro pedido de socorro.

E assim as tempestades vão se tornando contínuas, incessantes, atemorizantes. E solitárias.

Leca Castro - 28/11/11


E eu saí... precisei sair... ficar em mim estava insuportável. Não no sentido negativo, mas 'tava tudo muito confuso, estranho. E o que mais me deixou perdida foi o fato de ser uma sensação nova. Depois de tanto tempo achava que não teria nada que não houvesse sentindo ainda, da dor ao amor. E agora? O que senti? Qual nome, palavra, expressão devo usar? E percebo que estou errada. Muito errada. Quero definir e colocar nomes em sentimentos. Sentimentos não merecem rótulos, ninguém merece rótulo, mas sentimentos principalmente.

Quantas faces tem o amor? Alguém sabe responder? Uma pergunta mais fácil então (mentira): qual a descrição do amor? Porque algo me diz que essa sensação, mesmo sendo diferente, não passa de uma nova manifestação do amor em mim. Surgiu após entrar sem permissão em um texto e pegar uma das personagens e jogar pela janela. Feito isso me ocupei desse lugar e me vi dentro daquele emaranhado de palavras, completamente onisciente do que me acontecia em volta. E me remeti a vários momentos e experiências pregressas. O mergulho foi tão fundo, tão profundo, que me faltou o ar e o nó formado da garganta não permitiu que a chuva fosse mais uma vez engolida. E sim, a chuva saiu. Mas saiu trazendo junto objetos do fundo do mar, já embrutecidos pelo lodo e pelo tempo em que estavam encrustrados na base daquele mar. Quanta coisa choveu... eram mais que lágrimas, muito mais. Tudo, mas tudo tão inebriante que torna-se complicado colocar palavras que mal conseguiriam traduzir esse momento. A mistura era tão grande que enquanto chovia, uma tempestade se formou e transformou aquele mar de emoções. E após a turbulência maior e inicial (sim, ela ainda está aqui), só consigo dizer que é difícil explicar o que não se consegue definir. Não consegue ou não quer? E novamente me perco...

Cadê meu chão?

Leca Castro - 26/11/11 (para o garoto encharcado)


Quando acordei hoje percebi o quanto estava cansada de chover. A chuva pode não ser perceptível a quem está ao meu lado, mas por dentro, acordo inundada. Tem dias que a chuva é tanta ao ir para a cama que me vejo em meio a tempestades e raios. Os trovões não me incomodam, mas tenho pavor dos raios. São descargas de fúria do meu céu que parecem me atingir em cheio, no peito. E é quando todos adormecem que minha chuva aumenta. Ou talvez ela já era grande e só percebo sua intensidade quando o resto do mundo silencia. Como anseio pelo silêncio em mim. Sem murmúrios, sem gritos, sem vozes, sem chuvas. Apenas o silêncio. Dizem que esse só chega com a morte, mas já morri tantas vezes! Por que ainda não ouço o meu silêncio? Quantas mortes serão necessárias ainda até que o silêncio seja pleno? Até quando vou dar conta de ressuscitar e voltar a caminhar?

Em minhas análises sobre as mortes que já tive, percebo que sempre retorno mais fraca, necessitando de mais esforço para renascer. Agora sinto dificuldade até em levantar e caso consiga, terei que reaprender a andar. Não. Preciso antes aprender a me equilibrar novamente. Voltar a dar passos é algo que ainda está distante da minha realidade chuvosa e cinzenta. Só sei que me acostumei com a chuva e agora sou sua amante. Minhas vestimentas se resumem em capas e galochas. As nuvens me fascinam e me transportam, em suas formas de algodão, para o fundo do meu chão. Não sei mais se quero a luz do dia.

Leca Castro - 17/11/11

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